Escritos
Última modificação: Quarta-feira, 23 de julho de 2025
O Livro Vermelho do Hip Hop, de Spensy Kmitta Pimentel (1997)
De leitura obrigatória, O Livro Vermelho do Hip Hop, de Spensy Kmitta Pimentel, resultado de trabalho de finalização do curso de graduação em Jornalismo, pela Escola de Comunicação e Artes da USP em 1997, é um dos estudos pioneiros sobre o movimento social. Leitura atualmente introdutória, o texto apresenta a história do Hip Hop como um movimento de resistência criado por jovens negros e latinos nos guetos de Nova York nos anos 1970. Mais do que música, o Hip Hop nasceu como resposta à pobreza, à violência policial e ao racismo estrutural. Ele reúne quatro elementos principais: o DJ (a batida), o MC (a rima), o break (a dança) e o grafite (a arte nos muros). Cada um desses pilares foi surgindo acompanhando as necessidades e expressões da juventude periférica.
O ponto de partida foi o trabalho dos DJs, com Kool Herc, vindo da Jamaica, que introduziu a técnica de mixar os “breaks” das músicas de funk e soul para manter a pista animada. Em seguida, surgem os MCs, que improvisavam falas e rimas sobre essas batidas, no começo com versos simples, que aos poucos se transformaram em letras mais elaboradas. O breaking aparece logo depois, como dança de rua nas festas e batalhas entre gangues, substituindo a violência por expressão corporal. Por fim, o grafite se consolida como forma de marcar território e ocupar simbolicamente os espaços da cidade com arte.
A obra destaca ainda como o Hip Hop foi fortemente influenciado por movimentos como os Panteras Negras e o Black Power, além de líderes como Malcolm X e Martin Luther King nos EUA, e aligado com a temática da luta contra o Apartheid na África do Sul. O texto resgata a ligação do movimento com a tradição oral africana e com a história apagada dos povos negros nas Américas. Ao mesmo tempo, denuncia a tentativa da indústria cultural de neutralizar essa força criativa, tornando tudo mais comercial, algo que o movimento resistiu.
No Brasil, o Hip Hop chegou no início dos anos 80, primeiro nos bailes black do Rio de Janeiro e de São Paulo, que já reuniam milhares de jovens ao som de soul e funk. A partir dali, o rap, o break e o grafite tomaram conta das ruas, das estações de metrô e das periferias. Em São Paulo, a estação São Bento se tornou o ponto de encontro dos primeiros b-boys, MCs e grafiteiros. O rap nacional ganhou força com letras que falavam diretamente da vida nas quebradas, do racismo, da desigualdade e da repressão. Grupos como Racionais MCs, Thaíde & DJ Hum, Câmbio Negro e muitos outros transformaram suas vivências em denúncias.
Além disso, o movimento organizou-se em coletivos culturais que não só promoviam a arte do Hip Hop, mas também realizavam ações sociais e projetos educativos. A fundação do MH2O (Movimento Hip Hop Organizado), em 1989, foi um marco importante para a construção de um Hip Hop mais politizado e engajado. A cultura virou escola alternativa, formadora de consciência racial e ferramenta de transformação nas periferias.
Por fim, o autor conecta o Hip Hop às raízes culturais mais profundas: ele é herdeiro do soul, do funk, do blues, do samba, da embolada, da capoeira e do canto africano. O Hip Hop é, acima de tudo, uma forma de existir e resistir num mundo que sempre tentou calar as vozes negras e periféricas.